domingo, 14 de outubro de 2007

O Critério de Qualificação como Boca Livre

O professor Freiermund formalizou o FLQC- Free Lunch Qualifying Criterion (Critério de Qualificação como Boca Livre), que pode ser usado para analisar eventos especialmente complexos. O formalismo define três parâmetros fundamentais:

PV – Perceived Value (valor percebido): o valor do evento, tal como percebido pelo usuário. Uma estimativa pessimista pode ser feita, tomando-se por base o quanto custaria uma refeição de qualidade equivalente, em um restaurante de padrão compatível com o ambiente do evento. Entretanto, esse valor pode incluir componentes intangíveis, como a suposta transferência de status do patrocinador para o usuário.

PC – Perceived Cost (custo percebido): o custo do evento para o usuário. Normalmente, já que o evento é candidato a Boca Livre, a maioria das parcelas deste custo é intangível: a perda de uma oportunidade de ficar em casa lendo um bom livro ou vendo um bom filme, o incômodo da viagem, os riscos da cidade, o possível encontro com gente chata etc.

ST – Significance Threshold (limiar de significância): valor abaixo do qual o usuário não tem a sensação de estar levando vantagem. Os xenoetólogos brasileiros costumam chamar este parâmetro de limiar de Gérson. Para usuários pouco exigentes, este valor pode ser zero.

Diz então o Critério de Qualificação como Boca Livre:

Um evento se qualifica como Boca Livre se e somente se PV – PC > ST.

Aplicando o formalismo: almoços de mamãe

Um exemplo de aplicação do formalismo responde à pergunta de uma leitora:

O que dizer do almoço de domingo, aquele que normalmente as mães fazem para atrair os filhos? Por que mãe adora usar comida para manter filhos por perto? E por que funciona?

Resposta do Professor Freiermund:

Almoços semanais com a mamãe são uma tradição bem latina; nas culturas anglo-germânicas, as mães se dão por felizes se conseguirem congregar as famílias em umas poucas ocasiões anuais, como o Dia de Ação de Graças, o Natal, a Páscoa ou o Dia das Mães. De qualquer maneira são eventos complexos, com vários parâmetros intangíveis.

Atendendo ao pedido do ilustre Professor, complementei a resposta dele com uma análise formal, baseada no FLQC. É essa análise que exponho a seguir.

ST é normalmente fixo para um dado usuário, e independente do evento. Para avaliar certo evento, portanto, basta estimar PV e PC.

No caso dos almoços de mamãe, a componente tangível de PV não é, normalmente, muito alta, exceto se a mãe em questão for realmente uma perita culinária. Mas existe um componente intangível que depende muito da relação filial. Para filhos com sentimentos de culpa, por exemplo, o evento pode ter um alto valor de feel good.

Já PC é extremamente individual, e cada usuário tem que avaliar o seu. Ele varia, inclusive, com a época, a ocasião e o estado de espírito do usuário. Na realidade, a maioria dos questionamentos, quanto a almoços de mamãe, aniversários e outro eventos candidatos, decorre do grau de incerteza na medição de PC. Os xenoetólogos estudam diversos modelos para medição desse parâmetro, mas trata-se de pesquisa ainda incipiente. Contribuições são bem-vindas.

Discussão

A leitora contesta:

Será o PC realmente mensurável a priori, antes de se participar do evento? Não seria o PC subjetivo, dependendo do saco momentâneo do potencial cliente, mais do que de qualquer outra coisa? Afinal, quando realmente queremos ir a um lugar, fazemos pequenos sacrifícios, mas, quando não, inventamos qualquer desculpa, até das mais absurdas. Seria viável uma espécie de calculadora de saco, com parâmetros como: idade, estado civil, filhos, profissão?...

Componentes intangíveis

A estimativa dos componentes intangíveis de PV e PC é, sem dúvida, bastante difícil. Dentro da sociologia eleuterostomática, a posição mais radical é da escola intuicionista. Ela sustenta que a avaliação intuitiva de PV e PC seria bastante confiável, como corolário do Princípio de Freiermund, e, que portanto, se existe a menor dúvida sobre se um evento se qualifica como Boca Livre, é porque não se qualifica.

Mas a corrente majoritária rejeita essa tese radical, tendo em que vista que ela levaria a desprezar um grande número de eventos candidatos, e que as pessoas raramente sairiam de casa, se fossem levá-la às últimas conseqüências.

Todos os modelos formais até hoje propostos para estimativa dos componentes intangíveis levam a conjuntos de equações não-lineares e, em muitos casos, estocásticas e variantes no tempo. Conforme a Teoria do Caos, isso anula o valor desses modelos como preditores. Parece mais promissora uma abordagem na linha sugerida pela leitora: simuladores heurísticos baseados em questionários como perguntas simples e objetivas. Por exemplo, no caso de almoços de mamãe, contaria pontos positivos a pergunta:

Há parentes que contam piadas novas e realmente engraçadas?

Já pontos negativos seriam atribuídos à pergunta:

Há parentes que perguntam se é pavê ou pacomê?

Os próprios questionários poderiam ser aperfeiçoados por um processo evolutivo, através da comparação dos valores estimados e reais de PV e PC, por meio de entrevistas realizadas a posteriori.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Pergunte ao Zé – IV

P.: Zé, existe uma comunidade no Orkut onde os sujeitos questionam se determinadas ações deles são Coisa de Macho, ou não. Isso é válido?

Zé: Se os sujeitos têm a mais leve dúvida quanto à própria macheza, já deixaram de ser Machos, pois dúvida não é coisa de Macho, principalmente dúvida sobre a própria macheza. Ter certeza de que se é Macho é condição necessária para sê-lo, embora não suficiente. Se não têm realmente essa dúvida, mas dizem que têm, só de brincadeirinha, mesmo assim também não passam no Crivo, pois Macho não faz brincadeirinhas.

P.: Mas não existem aspectos da Macheza que são tecnicamente complexos?

Zé: Se a dúvida for realmente técnica, deve-se consultar um profissional, ou seja, este que vos fala.

P.: Zé, homem se assusta?

Zé: Depende. Se for Macho, não.

P.: Uai, macho nunca se assusta?

Zé: Em alguns casos, talvez seja aceitável. Por exemplo, até os sete anos.

P.: Então a macheza é um estado natural? O sujeito nasce macho? Não pode desenvolver a macheza?

Zé: Ninguém é Macho nato. Alguns podem desenvolver a Macheza, o que exigirá muita seriedade, atenção aos detalhes e, principalmente, vigilância permanente. Mas muitos, nem adianta tentar.

P.: Mas atenção aos detalhes é Coisa de Macho?

Zé: O Macho presta atenção aos detalhes do próprio comportamento, mas sem parecer que está prestando. Ao comportamento das mulheres, ele presta a atenção suficiente. Ao dos outros homens, machos ou não, nenhuma.

P.: O Vida Longa pergunta se ele, Vida, pode ser considerado Macho.

Zé: Prezado Vida, lamento informar, mas você é apenas macho lato sensu, como os Asmodeus. O macho stricto sensu não se aproxima de outros homens, machos ou não, e você se aproxima muito. Muito mesmo. Mas não fique triste. Você é realmente uma força da natureza, e presta um excelente serviço ecológico. Se não fosse por você, talvez alguns de seus clientes fossem machos, agravando o problema de superpopulação machística, que para mim é mais grave do que o efeito estufa.

P.: Você concorda com a afirmação do Trinador de que todo jogador de futebol é gay?

Zé: Bem, eu não gosto de ficar frente à TV para ver um bando de marmanjos correndo atrás da bola, dando trombadas, subindo um em cima do outro nas comemorações etc. Aliás, qualquer esporte coletivo de marmanjos. Muito greco-romano. Eu só assisto esportes femininos, principalmente voleibol. Aquelas pernas...

Mas não endosso essa generalização, pois generalização não é Coisa de Macho. Partindo de quem partiu, então, é muito suspeita.

P.: E a mordiscada do Roberto Carlos na orelha do Beckham?

Zé: Realmente, não passa no Crivo. E o Beckham gosta de usar as calcinhas de sua Spice Wife e, que, segundo o Ronaldo, tinha a camiseta perfumada, mesmo depois do Brasil x Inglaterra de 2002... E há também aquela foto tipo Brokeback Mountain. Note-se que o Roberto Carlos parece estar segurando a camisa do Cruzeiro.

P.: O Beckham não deve ganhar um desconto por ser inglês?

Zé: Mais ou menos. Inglês já nasce com uma carga de não-macheza terrível. É como se já entrassem no campeonato com muitos pontos perdidos. Dizem que o último inglês macho teria sido Henrique VIII. Talvez. Mas essa história de ficar mandando cortar a cabeça das mulheres também não passa no Crivo.

sábado, 15 de setembro de 2007

Xenoetologia sexual: perguntas e respostas

P.: Por que os cachorros costumam lamber o próprio pênis?

R.: Uma explicação simplista seria: porque eles conseguem.

Mas, do ponto de vista xenoetológico, a auto-felação canina não é considerada um comportamento inusitado, já que é praticada pela maioria dos cachorros, se não todos.

Já o caso humano certamente se enquadra, por ser, ao que tudo indica, praticado por minoria ínfima. Isso vale mesmo na hipótese de que a raridade da prática nos homens se deva a dificuldades técnicas.

Lembro-me de ter lido em algum lugar que isso seria praticado por cerca de 0,3% dos homens, mas não consegui localizar a fonte dessa informação. Não sei também se tal pesquisa se baseou em informação de possíveis praticantes, ou depoimentos de médicos especializados em problemas de coluna vertebral.

Embora sejam em pequeno número, não faltam entusiastas. Destaca-se Gary Griffin, autor de The Art of Auto-fellatio: Oral Sex for One, que pode ser adquirido na Amazon. Diz a resenha editorial:

The ultimate in safe sex -- self-performed oral pleasure at any hour of the day! If you've ever dreamed about this practice, this book can make your fantasy a reality. Packed with photos, advice, stories and training tips by men who know what they're doing!

Forgive the hype: this is also a serious examination of the history (through a variety of reports) and application of self-performed oral sex. It's both a fascinating examination of social perceptions and cultural mores, and a guide to specifics.

Provando que o Inusitado Sexual não conhece limites, é possível encontrar na Web material sobre técnicas ainda mais raras e difíceis, como é o caso da auto-sodomia.

P.: E transportar US$ 100.000,00 na cueca? Pode ser considerado um comportamento sexual inusitado?

O inusitado, no caso, decorre do incômodo. Como não circulam cédulas de mais que US$ 100,00, deduz-se que havia pelo menos mil notas, o que não devia ser nada confortável. Além disso, pouco inteligente, pois deve ter sido exatamente a semelhança com o perfil corporal do então deputado Roberto Jefferson que chamou a atenção dos policiais. Por isso, o crime organizado prefere transportar valores em materiais de maior relação valor/volume do que papel-moeda (diamantes etc.), o que permite formas mais íntimas de transporte.

Quanto a possíveis aspectos sexuais, consultei, como de costume, meus amigos psicanalistas. Como sempre, as opiniões divergiram. Sigismundo, o Alegre, considerou a guarda de dinheiro em tais lugares como resultante de uma fase anal mal resolvida. Já Guilherme, o Rico, pelo contrário, considerou-a como sinal de sexualidade desinibida e profissional, à semelhança das strippers. Embora não goste de polícia, chegou a especular sobre possíveis aplicações policiais de sua máquina de captação de orgônios, as partículas que constituiriam os quanta de energia orgásmica, que ele teoriza seriam realçados pela proximidade do dinheiro.

Como sempre, a explicação mais sensata me pareceu ser a de Carlos Gustavo, o Jovem. Segundo este, a participação do Sexo se dá no plano simbólico: o Sexo provê o local, o Dinheiro o meio, e o Poder o fim, completando mais uma vez a Unidade da Trindade simbólica formada por Príapo, Mamona e Wotan. Naturalmente, minhas fontes na Ordem da Grande Fênix, não gostaram dessa explicação. Eles, na qualidade de cultores do Sexo, não admitem associações sequer simbólicas com a Confraria de Csífodas, idólatra do Dinheiro, ou a Sociedade do Grande Dragão, cuja razão de ser é o Poder.

Já Manuel Rui Pontes opina:

Essa parangona foi debatida em minha tasca na Alfama, onde foi motivo para muita piada. Um da malta comentou que transportar assim tamanho balúrdio devia ser muito incómodo; outro disse que não, desde que se usasse cuecas folgadas; ao que um terceiro retrucou que, nesse caso, não ficaria a guita devidamente segura; portanto, aduziu um quarto, tudo devia estar devidamente amarrado à pila. Um que é do sul do país comentou que lá se chama de pila também ao dinheiro, mas nunca imaginava que no Brasil se juntava assim coisa com coisa, tão literalmente. Concluiu-se, ao fim e ao cabo, que isso foi sarilho de aldrabões pacóvios.

Por outro lado, segundo a opinião técnica de Metódio Prudente:

A questão do transporte íntimo de altas somas tem implicações preocupantes para os usuários da Informática. Microprocessadores avançados têm maior relação valor/volume do que metais preciosos ou drogas, e têm-se especulado sobre a possível utilização deles pelo crime organizado, como meio de transporte de altos valores. Observou-se, inclusive, um aumento significativo do número de roubos de carregamentos de microprocessadores, em escala mundial. Existem problemas com o fator de forma e os pinos, é claro, mas nada que técnicas adequadas de embalagem não possam resolver.

Talvez essa tática já esteja sendo mais usada do que se supõe; isso explicaria certos comportamentos inusitados de nossos computadores.

Como se vê, talvez os microprocessadores tenham tornado os diamantes obsoletos para o transporte íntimo de valores. Mas dizem que estes ainda são, como queria Marilyn Monroe, a girl’s best friend.

P.: Um dia eu estava vendo uma dessas CPIs na televisão. O deputado Roberto Jefferson estava falando de um araponga que dizia que era comandante da Marinha. Uma hora o deputado disse: Se esse aí foi da Marinha, ele nunca saiu da barrica. O que o nobre parlamentar queria dizer? Tem a ver com o teste da farinha?

R.: Referia-se a um tradicional costume dos lobos do mar. O teste da farinha define a ordem de prioridade na barrica.

terça-feira, 24 de julho de 2007

Tecnicalidades

Os aspectos técnicos da xenoetologia sexual por vezes confundem os leigos. Por exemplo, como classificar o uso de bonecas infláveis? Uma leitora assídua indaga se seria um caso de masturbação, ou seja, monossexualismo? Ou seria tecnossexualismo, pelo emprego de um artefato? Ou, não podendo esse artefato ser realmente classificado como técnico, e sim como um objeto qualquer, um caso de pansexualismo?

Técnicos como meu amigo Metódio Prudente dizem que, seja como for, é indispensável o uso da correta taxonomia. Sem chegar a entrar no mérito das bonecas infláveis, diz o Metódio: Como engenheiro de software, considero extremamente importante o uso da melhor taxonomia possível, para a classificação consistente dos conceitos e o conseqüente bom entendimento dos problemas. Proponho, portanto, a adoção do termo tecnossexual para os que fazem sexo com artefatos técnicos, e do termo cibersexual para os usuários dos recursos virtuais.

Já o outro amigo d’além-mar, Manuel Rui Pontes, que, na qualidade de engenheiro de sistemas é especialista em generalidades, aduz:

Apoio tua ênfase na importância da taxonomia, ó Metódio, e venho propor-te um problema taxonómico. Estava outro dia com os camaradas em uma tasca da Alfama, a petiscar uns caracóis, tomar uns finos e discutir lérias. Depois de umas quantas, perguntou alguém o seguinte:

-Se um gajo fizer sexo com seu próprio clone, estará a dar ao hidráulico, ou será paneleiro?

Ora pois, não é preciso ser biólogo para saber que masturbação não é, e que, sendo o clone do mesmo sexo, certamente tal proceder se caracteriza como gay. Mas veio-me outra dúvida: será, no caso, um gay incestuoso? Quer-me parecer que o conceito de incesto não é preciso o suficiente para dirimir a importante questão.

Lembro-me de uma história do Robert Heinlein em que o personagem Lazarus Long manda fazer clones dele mesmo. Melhor, DUAS clones, pois os cromossomos Y são trocados por cromossomos X do próprio Lazarus, para que saiam duas meninas; o objetivo de Lazarus é ver como é que ele seria se fosse mulher, sem ter que virar transgênero. Mal as garotas atingem a puberdade, querem transar com o Lazarus. Este resiste, alegando que é incesto (a idade das meninas ele não considera problema). Elas finalmente o convencem de que seria apenas uma espécie de masturbação. Como você vê, a dúvida da turma do Manuel não é de todo despropositada.

Ao ser publicada no Orkut a observação do Manuel, levantou-se um assunto que, por vias indiretas, tem a ver tanto como tecnologia quanto sexualidade. É sabido que a moda da depilação axilar feminina foi inventada apenas em 1915, pela indústria americana de lâminas de barbear, com isso dobrando seu mercado consumidor. Daí o barbear feminino espalhou-se para as pernas e, nas últimas décadas, a lugares mais recônditos, que passaram do conceito de Mata Atlântica ao de Bigodinho de Hitler, e até a soluções ainda mais radicais. Não faltou aí a contribuição da tecnologia tupiniquim, conhecida como Brazilian Wax lá na matriz, onde segundo dizem, tornou-se em certas cidades (das quais Dallas é a mais citada) um presente tradicional para debutantes. Bem, quanto às conotações sexuais, as opiniões são extremamente divergentes.

Na ocasião, a Leitora Assídua lembrou a conhecida piadinha do Ai Jesus, mais duas!!!, que trata de uma hipotética relutância das lusitanas na adoção dessa tecnologia. Sobre isso, comentou o Manuel:

Quanto a tua historieta, talvez ainda possa passar-se em um algum recanto de Trás-os-Montes ou do Alentejo. Mas cá em Lisboa há muito se adopta entre as raparigas a moda depilatória axilar. Mesmo as conas andam a ser desarborizadas, por influência brasileira. Não me refiro à Amazónia, é claro, mas aos fatos de banho cavados.

domingo, 15 de julho de 2007

O teste da mulher infiel

Um contribuinte anônimo me enviou o seguinte inusitado sexual bíblico, que aparece em Números, 5. Trata-se de um teste para uso de maridos que suspeitam esteja a senhora do seu lar costurando para fora:

Se uma mulher desviar-se de seu marido e lhe for infiel, 13. dormindo com outro homem, e isso se passar às ocultas de seu marido, se essa mulher se tiver manchado em segredo, de modo que não haja testemunhas contra ela e ela não tenha sido surpreendida em flagrante delito; 14. se o marido, tomado de um espírito de ciúmes, se abrasar de ciúmes por causa de sua mulher que se manchou, ou se ele for tomado de um espírito de ciúmes contra sua mulher que não se tiver manchado, 15. esse homem conduzirá sua mulher à presença do sacerdote e fará por ela a sua oferta: um décimo de efá de farinha de cevada; não derramará óleo sobre a oferta nem porá sobre ela incenso, porque é uma oblação de ciúme feita em recordação de uma iniqüidade. 16. O sacerdote mandará a mulher aproximar-se do altar e a fará estar de pé diante do Senhor. 17. Tomará água santa num vaso de barro e, pegando um pouco de pó do pavimento do tabernáculo, o lançará na água. 18. Estando a mulher de pé diante do Senhor, o sacerdote lhe descobrirá a cabeça e porá em suas mãos a oblação de recordação, a oblação de ciúme. O sacerdote terá na mão as águas amargas que trazem a maldição. 19. E esconjurará a mulher nestes termos: se nenhum homem dormiu contigo, e tu não te manchaste abandonando o leito de teu marido, não te façam mal estas águas que trazem maldição. 20. Mas se tu te apartaste de teu marido e te manchaste, dormindo com outro homem... 21. O sacerdote fará então que a mulher preste o juramento de imprecação, dizendo: o Senhor te faça um objeto de maldição e de execração no meio de teu povo; faça emagrecer os teus flancos e inchar o teu ventre. 22. E estas águas, que trazem maldição, penetrem em tuas entranhas para te fazer inchar o ventre e emagrecer os flancos! Ao que a mulher responderá: Amém! Amém! 23. O sacerdote escreverá essas imprecações num rolo e as apagará em seguida com as águas amargas. 24. E fará com que a mulher beba as águas amargas que trazem maldição, e essas águas de maldição penetrarão nela com sua amargura. 25. O sacerdote tomará das mãos da mulher a oblação de ciúme, agitá-la-á diante do Senhor e a aproximará do altar; 26. tomará um punhado dessa oblação como memorial e o queimará sobre o altar; depois disso dará de beber à mulher as águas amargas. 27. Depois que ela as tiver bebido, se estiver de fato manchada, tendo sido infiel ao seu marido, as águas que trazem maldição trar-lhe-ão sua amargura: seu ventre inchará, seus flancos emagrecerão, e essa mulher será uma maldição no meio de seu povo. 28. Mas, se ela não se tiver manchado, e for pura, ela será preservada e terá filhos. 29. Tal é a lei sobre o ciúme quando uma mulher se desviar de seu marido e se manchar, 30. ou quando o espírito de ciúme se apoderar de seu marido, de modo que ele se torne ciumento de sua mulher; ele a levará diante do Senhor e o sacerdote lhe aplicará integralmente essa lei. 31. O marido ficará sem culpa, mas a mulher pagará a pena da sua iniqüidade.

Portanto, se alguém estiver sentindo coceira na testa, mãos à obra. E vê-se por aí que mandingas desse gênero não são exclusividade de cultos de origem africana, mas estão consagradas no Livro fundamental das religiões monoteístas...

quinta-feira, 14 de junho de 2007

Um inusitado sexual bíblico

Segundo se conta em Gênesis 38, Judá, filho de Jacó, teve três filhos varões: Her, Onan e Sela. Her, o primogênito, casou-se com Tamar; mas era um mau sujeito, e por isto foi castigado com a morte prematura. Conforme costume da época, Judá ordenou a Onan que desposasse a cunhada. Ocorre que, também conforme o costume, os filhos seriam considerados descendência do falecido. Onan não gostou da idéia de ficar sem posteridade, e praticou o coitus interruptus. Por isto, também foi punido com a morte prematura.

O inusitado, no caso, é que Onan ficou com fama de onanista. Injusta, como se vê, pois o que ele realmente fez foi tirar o dele fora. Mas pecado de Onã não foi nem esse, e sim o descumprimento da lei do levirato, privando o irmão morto de posteridade, conforme as regras do jogo do judaísmo da época:

8. Então Judá disse a Onã: “Vai, toma a mulher de teu irmão, cumpre teu dever de levirato e suscita uma posteridade a teu irmão.” 9. Mas Onã, que sabia que essa posteridade não seria dele, maculava-se por terra cada vez que se unia à mulher do seu irmão, para não dar a ele posteridade. 10. Seu comportamento desagradou ao Senhor, que o feriu de morte também.

E a história continua de forma talvez ainda mais inusitada:

11. E Judá disse a Tamar, sua nora: “Conserva-te viúva em casa de teu pai até que meu filho Sela se torne adulto.” “Não é bom, pensava ele consigo, que também ele morra como seus irmãos.” E Tamar voltou a habitar na casa paterna. 12. Muito tempo depois, morreu a filha de Sué, mulher de Judá. Passado o luto, subiu Judá a Tamna para a tosquia de suas ovelhas, com seu amigo Hira, o odolamita. 13. E foi noticiado a Tamar: “Eis que o teu sogro sobe a Tamna para a tosquia de suas ovelhas.” 14. Depôs ela então os seus vestidos de viúva, cobriu-se de um véu, e, assim disfarçada, assentou-se à entrada de Enaim, que se encontra no caminho de Tamna, pois via que Sela tinha crescido e não lha tinham dado por mulher. 15. Judá, vendo-a, julgou tratar-se de uma prostituta, porque tinha o rosto coberto. 16. E, chegando-se a ela no caminho, disse: “Queres juntar-te comigo?” (Ignorava ele que se tratava de sua nora.) Ela respondeu: “O que me darás para juntar-me contigo?” 17. “Mandar-te-ei um cabrito do meu rebanho.” “Está bem; mas dá-me então um penhor, até que o tenhas enviado.” 18. “Que penhor queres que eu te dê?” “Teu anel, teu cordão e o bastão que tens na mão.” Ele os entregou; em seguida, aproximou-se dela e ela concebeu. 19. E levantando-se, partiu; tirou o seu véu e retomou seus vestidos de viúva. 20. E Judá mandou-lhe o cabrito por seu amigo, o odolamita, para retirar o penhor das mãos daquela mulher, mas ele, não a encontrando, 21. perguntou aos habitantes do lugar: “Onde está aquela prostituta que estava em Enaim, à beira do caminho?” Responderam-lhe: “Não há prostituta nesse lugar!” 22. Ele voltou para junto de Judá: “Não a encontrei, disse ele, e os moradores daquele lugar disseram-me que não havia nenhuma prostituta ali.” 23. “Guarde ela o meu penhor, respondeu Judá, não nos tornemos ridículos! Eu mandei o cabrito; tu, porém, não a encontraste”. 24. Mais ou menos três meses depois, vieram dizer a Judá: “Tamar, tua nora, conduziu-se mal: vê-se que está grávida.” Judá respondeu: “Tirai-a para fora, que ela seja queimada!” 25. E, enquanto era conduzida, ela mandou dizer ao seu sogro: “Concebi do homem a quem pertence isto: examine bem, ajuntou ela, de quem são este anel, este cordão e este bastão.” 26. Judá, reconhecendo-os, exclamou: “Ela é mais justa do que eu; pois que não a dei ao meu filho Sela.” E não a conheceu mais. 27. E, na ocasião de dar à luz, eis que ela trazia dois gêmeos no seu ventre. 28. No parto, saindo uma mão, a parteira tomou-a e atou nela um fio vermelho, dizendo: “Este é o que saiu primeiro!” 29. Mas, como ele retirasse a mão, saiu o seu irmão. “Que brecha fizeste! exclamou a parteira: Que a brecha esteja sobre ti!” 30. E chamou-se-lhe Farés. Em seguida, veio o seu irmão, com o fio vermelho atado na mão. Deu-se-lhe o nome de Zara.

Como se vê, a lei do levirato justificava até fingir-se de prostituta para seduzir o sogro. E essa história de Que brecha fizeste! seria considerada como de humor rude, se contada em um salão. Parece piada de ginecologista.

Para deixar claro que não estou simplesmente zombando das Escrituras, acrescento aqui o que escrevi n'A Grande Fênix:

Note o leitor que essas histórias de libertinagem no Velho Testamento não significam que o Livro seja um repositório de sacanagens, como até imaginam alguns que nunca o leram. Significam apenas que a Bíblia contém um rico conjunto de narrativas com personagens bastante humanos, com todas as altezas e baixezas dessa condição. Quem fica mal, julgo eu, são aqueles gostam de usar citações literais de escrituras de qualquer religião para justificar os comportamentos mais inusitados.

domingo, 10 de junho de 2007

O comportamento sexual mais inusitado

Discussões sobre sexo costumam despertar grande interesse. Atualmente, uma das discussões mais candentes na comunidade xenoetológica é sobre a questão de qual é o mais inusitado dos comportamentos sexuais. Segundo a Seita da Grande Fênix, é a assexualidade. Para eles, isso é coisa de ameba.

Outros discordam, citando o caso da zoofilia, e até da fitofilia. Como disse uma de minhas estudantes: eu gostaria de citar o costume peculiar e comum em regiões isoladas, ou seja, na roça, de se entreter com animais como cabras e galinhas, e todo tipo de fauna da zona agrícola... E não posso deixar de citar também que as vezes este hábito se estende ao reino vegetal inclusive, visto os contumazes ataques a incautas bananeiras em regiões de alta concentração masculina... Isto, para mim, é que é comportamento inusitado...

Essas investidas sexuais nos reinos animal e vegetal podem ser consideradas casos particulares do pansexualismo, para o qual todo o Universo é fair game, ou, em português coloquial, ’tá valendo. Pergunto-me como fica o reino mineral, do ponto de vista pansexual. É verdade que a maioria dos objetos deste reino não tem textura ou consistência viável para tais práticas. Naturalmente, existe a exceção dos artefatos tecnológicos, como é o caso dos implementos sexuais (vibradores, bonecas infláveis etc.). Na comunidade xenoetológica, continua sendo objeto de debate a questão: devem os usuários de tais artefatos serem considerados pansexuais ou monossexuais (isto é, masturbadores)?

A propósito do papel da tecnologia na sexualidade, meu colega Metódio Prudente, que é do ramo, elaborou arguto comentário sobre o pansexualismo virtual: Por que ser um chauvinista do mundo real? O pansexual moderno que se preze deve incluir o mundo virtual, com suas possibilidades infinitas (literalmente). Não é por acaso que a pornografia é uma das maiores áreas de comércio eletrônico (senão a maior). É interessante também notar que a convergência tecnológica entre os implementos sexuais e a virtualidade já permite que parceiros façam sexo à distância, usando trajes apropriados que transmitem seus movimentos para implementos usados pelo parceiro remoto. É a tecnologia teledildônica, um exemplo notável de realidade aumentada.

Bem, eu entendo que o sexo virtual antecede a Era da Informática. O sexo por telefone existe há décadas, proporcionando um ganha-pão extra a tantas recatadas donas de casa, sem que precisem sair do recesso de seu lar.

Mais ainda, o sexo virtual é pré-tecnológico. Um dos casos mais interessantes é o do Pensador. Esse personagem, ao que consta, se apresentava em cabarés parisienses, no início do século passado. Aparecia no palco completamente nu, e assumia a pose da escultura homônima de Rodin. Aos poucos, absolutamente imóvel, ia conseguindo uma ereção. Permanecia nesse estado por alguns minutos, e finalmente ejaculava. É um exemplo impressionante do Poder do Pensamento Positivo.