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domingo, 1 de janeiro de 2012

Mais Método Xenoetológico

As Navalhas Xenoetológicas

É forçoso reconhecer que o método xenoetológico difere das ciências mais estabelecidas, em alguns particulares. Ciências como a Física, a Química, a Biologia e tantas outras, se pautam pelo Princípio da Navalha de Occam, também chamado de Princípio da Parcimônia. Formulado pelo filósofo inglês William of Ockham, também conhecido como Occam, esse princípio tem sido citado como Entia non sunt multiplicanda praeter necessitatem (Entidades não devem ser multiplicadas além da necessidade), ou como Pluralitas non est ponenda sine neccesitate (A pluralidade não deve ser proposta sem necessidade), ou ainda Frustra fit per plura quod potest fieri per pauciora (É inútil fazer com mais o que pode ser feito com menos). Na formulação de Isaac Newton: We are to admit no more causes of natural things than such as are both true and sufficient to explain their appearances (Não devemos admitir mais causas das coisas naturais que as necessárias e suficientes para explicar suas aparências). Ou. finalmente, como dizem os cientistas modernos: Entre duas teorias que fazem exatamente as mesmas predições, a mais simples deve ser preferida.

Ao contrário do que às vezes se pensa, a Navalha de Occam não é parte integral do método científico, mas apenas uma heurística que ajuda o cientista a escolher entre caminhos de pesquisa. Em algumas ciências, como a cosmologia e a psicologia, as explicações são quase sempre mais complexas do que o esperado. Fôssemos aplicar Occam literalmente à xenoetologia, provavelmente ficaríamos sem material de estudo. Exatamente por serem inusitados, os fenômenos xenoetológicos também desafiam o Princípio da Parcimônia. Por isso, os xenoetólogos se vêem compelidos a adotar uma variante que não escolha preferencialmente as elucidações mais triviais.

Fomos buscar tal alternativa em uma ciência irmã, a psicanálise, na forma da Navalha de Freud: Entre duas teorias que fazem exatamente as mesmas predições, a mais interessante é melhor, desde que minimamente plausível. Assim, em lugar se contentar em verificar se o paciente está deprimido por problemas no emprego ou por dor de corno, o terapeuta pode tecer hipóteses sobre problemas na infância, de preferência de natureza sexual. A hipótese será não verificável, de qualquer jeito, mas dará oportunidade a que o paciente fale ainda mais de si, o que, no final das contas, é o que ele está querendo mesmo. Como bônus, ao falar de si, o paciente oferece mais material ao analista, renovando o ciclo. Pois bem. Com a xenoetologia, funciona do mesmo jeito.

A Navalha de Freud é aplicável em outras ciências e técnicas, todas de altíssima respeitabilidade. Por exemplo, na economia política, em todo o espectro ideológico, do neoliberalismo ao marxismo. Ou no jornalismo: por exemplo, para explicar o mesmo fenômeno (dinheiro recebido por um político), a teoria mais complexa (compra de votos parlamentares, que é corrupção brava) rende mais matéria do que a mais simples (contribuição clandestina de campanha, irregular, mas relativamente corriqueira).

Já a literatura, o cinema e as crenças em geral ficam com a Navalha de Homero: semelhante à Navalha de Freud, mas eliminando-se a cláusula minimamente plausível. Aí valem intervenção dos deuses, mágica, milagres, em suma: você decide. Interessa apenas manter o interesse, seja do leitor, espectador ou crente.

Recentemente, porém, a IXA (International Xenoethological Association) reconheceu a diferenciação entre os crentes esotéricos e os convencionais. Para os esotéricos, não basta que a alternativa escolhida seja interessante; aliás, isso nem é considerado tão importante. O que eles realmente preferem é a hipótese mais absurda, ou esdrúxula; não importa que tal tipo de hipóteses nem seja tão interessante, como muito bem o sabem os escritores (com a possível exceção dos humoristas de estilo besteirol).

Daí a necessidade de se definir uma Quarta Navalha, mais alinhada com as demandas do pensamento esotérico. Houve muita discussão sobre quem seria homenageado com a nova Navalha, já que os candidatos abundam. Os nomes mais cotados eram os de Erich von Däniken, Zecharia Sitchin e David Icke. Icke foi um candidato fortíssimo, pelo inusitado extremo de suas teses sobre os reptilianos, o que leva até crédulos moderados a serem um pouco cético. Erich von Däniken, por outro lado, não é tão absurdo quanto os outros dois, e perdeu pela timidez. Ganhou Sitchin pelo critério de aceitação entre os crédulos e roupagem pseudocientífica na Zona de Cachinhos Dourados: just right. Um brinde à Navalha de Sitchin!

Os Efeitos Xenoetológicos

Tal como a parapsicologia ou, pode-se até dizer, a maior parte das ditas ciências humanas, a Xenoetologia é obrigada, na maior parte das vezes, a tratar com resultados reprodutíveis. Daí decorre que geralmente suas fontes são anedóticas; não necessariamente no sentido humorístico que confere a esse termo, mas no sentido adotado em inglês, ou seja: narrativa de um incidente isolado. Ainda que fora dos rigores estatísticos da metodologia científica padrão, é melhor que nada, como bem os sabem os engenheiros de software e muitos outros profissionais técnicos, que há décadas vivem de tais dados, à falta de quem patrocine experimentos controlados relevantes.

Forçado a extrair informação de narrativas nem sempre verificáveis, o xenoetólogo deve, pelo menos, precaver-se contra alguns efeitos insidiosos, que ameaçam corromper o mínimo de verdade que as narrativas singulares possam trazer. Se não o fizer, melhor será que se filie a grupos místicos, ou pelo menos adeptos de teorias conspiratórias. Tais grupos partem de observações já duvidosas no nascedouro, para chegar a conclusões infensas ao bom-senso. Aliás, para eles, quanto mais uma teoria passar ao largo do senso comum, mais merecedora de renome, atenção e difusão. Até, quem sabe, crença.

Uma das armadilhas que o xenoetólogo proficiente deve aprender a evitar é o Efeito Rashomon. Refere-se ao famoso filme de Akira Kurosawa, baseado em um conto de Ryūnosuke Akutagawa, e refilmado por Martin Ritt como The Outrage(no Brasil, Quatro Confissões). Em resumo, um bandido assalta um casal, e o marido termina morto. A polícia investiga o crime, e ouve as três primeiras versões: a do bandido, a da mulher, e a do marido (falando através de um médium). Cada uma reinterpreta vários pontos da anterior, deixando o espectador cada vez mais em dúvida quanto à verdade. O mais interessante é que o objetivo de cada narrador não é o de parecer inocente; ao contrário, eles admitem parte da culpa, na medida em que isso contribua para aumentar a respectiva grandiosidade. A versão final é a de alguém que, por acaso, passava pelo local, e não foi visto pelos demais personagens. Segundo este passante, todos eram covardes e incompetentes, e tudo não passou de uma comédia de erros e acidentes.

Agora vejam o dilema do xenoetólogo: se ele aplicar a Navalha de Occam, fatalmente escolherá a versão do passante. Mas esta não envolve comportamento inusitado algum: apenas boa e velha estupidez humana. Já se aplicar a Navalha de Freud terá três belas histórias para contar. Pessoalmente, fico com a versão do marido, que, além de ser a menos óbvia, ainda conta com o apelo ao sobrenatural...

Para finalizar com uma nota erudita, permito-me citar dois críticos:

Rashomon is a brilliant but bleak and very dramatic examination of epistemology, the philosophy of knowledge, the need for certainty and its frail attainment. (Carter B. Horsley)

In the end, we are left recognizing only one thing: that there is no such thing as an objective truth. It is a grail to be sought after, but which will never be found, only approximated. (James Berardinelli)

E resta acrescentar que o Efeito Rashomon já tem um verbete na Wikipedia.

Também na categoria, digamos, epistemológica, existe o Efeito Elefante. Vem de uma velha fábula indiana, segundo a qual cinco cegos encontraram um elefante, pela primeira vez na vida. O primeiro apalpou a barriga do elefante, e disse que um elefante era como uma parede. O segundo abraçou uma perna, e disse que o animal era como um tronco de árvore. O terceiro pegou em uma orelha, e concluiu que o bicho era como uma ventarola. O quarto pegou na tromba, e disse que todos os outros estavam errados: um elefante, na realidade, era uma espécie de enorme cobra. O quinto pegou no rabo, e disse que o quarto tinha chegado perto, mas o elefante era, mais precisamente, como uma corda.

A propósito, sempre que se conta esta fábula, há um engraçadinho por perto, para perguntar sobre um sexto cego, e outra possível parte da anatomia elefântica. Vamos passar sem essa.

Tal como o Efeito Rashomon, o Efeito Elefante gera diferentes interpretações do mesmo fato. Mas este último é menos sofisticado: cada variante reflete uma visão (?!) que poderíamos de objetivamente parcial, causada por informação insuficiente sobre o assunto em análise, enquanto no Efeito Rashomon cada versão é subjetivamente parcial, distorcida pela influência dos interesses de cada narrador. Em diferentes graus e combinações, ambos costumam estar presentes em discussões inconsequentes e não-conclusivas, seja no botequim ou no Orkut.

O Efeito Elefante também já tem verbete na Wikipedia.

O filme Deu Louca na Chapeuzinho é um exemplo de Efeito Rashomon para crianças. Em que pese a longa tradição cinematográfica do Efeito Rashomon, desde o filme que originou o nome do efeito, até o recente Herói, uma reflexão mais profunda me levou a concluir que, no caso, trata-se do Efeito Elefante. Com efeito (sem intenção de trocadilho infame), as diferentes versões da história, narrados por Chapeuzinho, pela Vovó, pelo Lobo e pelo Lenhador, não são alternativas, mas complementares, pois nenhuma delas desmente as outras, no todo ou em parte.

A tríade de efeitos epistemo-xenoetológicos é completada pelo Efeito Palimpsesto. Refere-se aos antigos pergaminhos nos quais a escassez e alto do custo do material fazia com que os textos antigos fossem apagados e sobrescritos. Textos pagãos, por exemplo, eram sobrescritos por escrituras cristãs. Posteriormente, descobriram-se técnicas para recuperar as camadas inferiores dos manuscritos. Alguns exemplos do Efeito Palimpsesto:

1. No livro Contato, Carl Sagan narra como uma civilização alienígena usa várias camadas de significado para embutir mensagens aos terrestres. Boa parte do brilho de raciocínio do livro foi perdida na versão cinematográfica, em parte pela tentativa de fazer média com as religiões. Mas isso é assunto para outra discussão.

2. O filme Herói, de Zhang Yi-mou, frequentemente comparado a Rashomon, é na realidade um exemplo do Efeito Palimpsesto. As várias versões contadas pelos personagens não são variantes da mesma história, mas sucessivas aproximações, cada vez mais reveladores das reais intenções e motivações deles. Os personagens não são gente comum e egoísta como os de Rashomon; ao contrário, todos os protagonistas só querem o bem do Povo e a felicidade geral da Nação. São as diferentes interpretações do que isso signifique que os levam a ocultar ou deformar partes da verdade.

3. O filme La mala educación, de Almodóvar, é outro exemplo. Aqui, ao contrário de Herói, nenhum dos personagens é boa bisca, embora nenhuma seja completamente mau: nem mesmo o padre pedófilo. Em termos práticos, ganha aquele que sabe tomar melhor partido de cada uma das camadas da história.

Modestamente, eu mesmo investiguei o efeito na Divina Comédia, conforme provo em A Grande Fênix. As duas primeiras camadas são óbvias, desde a época da publicação: a alegoria moral e religiosa, no topo, e, logo abaixo dela, o comentário sobre a política italiana da época, com um apelo à unidade nacional. O que eu mostrei foi que certa modelo que listou a Comédia entre seus livros preferidos, por gostar de literatura engraçada, tinha muito mais razão do supõem os que riram dela por tal observação. Pelo menos quanto ao cântico do Inferno, mostrei, com provas abundantes, o intencional objetivo cômico do Alighieri. Mas a Ordem da Grande Fênix alega existir ainda uma quarta camada de significado oculto...

No Efeito Palimpsesto, a narrativa se apresenta em sucessivas camadas; na medida em que se raspa cada camada, emergem mais alguns aspectos até então escondidos. De certo forma, pode-se dizer que o Efeito Palimpsesto se aproxima da verdade por via vertical, enquanto os efeitos Rashomon e Elefante apresentam alternativas horizontalmente dispostas... Em conseqüência, o Efeito Palimpsesto é o mais sofisticado, e o mais difícil de reconhecer.

Talvez por isso, não tem ainda verbete na Wikipedia. Vou pensar no caso.

domingo, 25 de setembro de 2011

Neurônios, estereótipos e piratas

Cientistas 'pintam' neurônios com as cores do arco-íris

Uma equipe da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, utilizou a mais nova técnica de coloração celular para "pintar" neurônios de camundongos com até 90 cores diferentes. As descobertas sobre a nova técnica, que recebeu o nome de brainbow, ou "arco-íris cerebral", foram publicadas na revista científica Nature.

Na experiência, os especialistas americanos usaram uma combinação de várias proteínas fluorescentes para colorir os neurônios. "Da mesma forma que um monitor de televisão mistura vermelho, verde e azul para criar um leque de cores derivadas, a combinação de três ou mais proteínas fluorescentes pode dar várias outras tonalidades aos neurônios", explicou Jeff Litchman, um dos líderes do estudo.

Até agora, as técnicas de coloração cerebral conseguiam obter apenas cinco cores variadas. A tecnologia do "brainbow", no entanto, pode obter até 90 tonalidades ao usar uma técnica moderna que manipula o material genético conhecido como Cre/lox para produzir proteínas fluorescentes nas cores verde, amarela, laranja e vermelho.

Ao ser inseridas nos neurônios individualmente, as proteínas fluorescentes provocaram um explosão de cores, "colorindo" os neurônios de camundongos com dezenas de tonalidades variadas. Além de produzir imagens impressionantes visíveis em microscópio, a técnica pretende auxiliar no mapeamento do circuito do sistema nervoso humano e dar novas pistas sobre a origem de certas doenças cerebrais. "O brainbow deve ajudar a ciência a fazer um mapeamento mais apurado da trama cerebral e do emaranhado de neurônios do sistema nervoso", conclui Jeff Litchman.

Fonte: Agência Estado

Uma excelente notícia para os punks, que não precisam mais limitar suas explosões de cores aos cabelos: chega de beleza superficial, viva a beleza interior. Vejam a foto: puro impressionismo.

E a melhor parte é que, quanto menos neurônios, mais fácil aplicar o brainbow.

Homens emburrecem diante de loiras, diz estudo

Um estudo publicado na revista especializada Journal of Experimental Social Psychology sugere que os homens mudam de comportamento e "emburrecem" para se adequar ao estereótipo da "loira burra". No estudo liderado pelo psicólogo social Thierry Meyer, da Universidade Paris-X Nanterre, o desempenho intelectual dos homens cai quando eles são expostos a fotografias de mulheres loiras.

Os cientistas fizeram testes de conhecimento geral em homens em duas ocasiões, depois de mostrar a eles diferentes fotos de mulheres. Nas experiências, os homens que viram fotos de loiras tiveram resultados inferiores. Os cientistas acreditam que os resultados não foram causados por simples distração causada pelas loiras, mas sim porque, inconscientemente, eles teriam sido contaminados pelo estereótipo da "loira burra".

"Isso prova que as pessoas confrontadas com estereótipos geralmente se comportam de acordo com eles", disse Meyer. "Neste caso, as loiras têm potencial para fazer homens agirem de forma mais burra, porque eles 'imitam' inconscientemente o estereótipo da loira burra." Pesquisas anteriores já mostraram que o comportamento do ser humano é fortemente influenciado por estereótipos. Alguns trabalhos apontaram que as pessoas tendem a andar e a falar mais devagar diante de idosos.

Fonte: Agência Estado

Pois é, foi só falar em neurônios... Mas dizer que a tal contaminação por estereótipos é responsável pelo fato de as pessoas andem e falem mais devagar diante de idosos, parece um tanto forçado. Occam nos sugeriria que as pessoas andam mais devagar para que os idosos possam acompanhá-las, já quem nem sempre são ágeis, e falam mais devagar para que os entendam, já que costumam ter audição pior.

Arqueólogos dizem ter descoberto navio do pirata Capitão Kidd

Uma equipe de arqueólogos submarinos dos Estados Unidos anunciou, na quinta-feira, 13, a descoberta dos restos naufragados do navio que era comandado pelo notório pirata capitão William Kidd. Os vestígios estão ao largo de uma pequena ilha da República Dominicana. Canhões e âncoras cobertos de cracas foram encontrados a meros 10 metros de profundidade, em águas da Ilha Catalina. Acredita-se que sejam os restos do Quedagh Merchant, um navio abandonado pelo bucaneiro escocês em 1699, disseram pesquisadores da Universidade de Indiana.

"Quando olhei para baixo e vi, não pude acreditar que todo mundo tivesse passado batido por 300 anos", disse o arqueólogo-mergulhador Charles Beeker. "Estive em milhares de naufrágios, e este é um dos primeiros que nunca foram tocados por saqueadores". Beeker diz que o naufrágio era caçado avidamente, inclusive por um grupo autorizado pelo governo dominicano. Historiadores acreditam que o navio saqueado e queimado, pouco depois de ter sido abandonado por Kidd. A República Dominicana licenciou o a Universidade de Indiana para estudar o naufrágio e criar uma reserva submarina, para ser visitada por mergulhadores.

O historiador Richard Zacks, que escreveu um livro sobre Kidd, disse que o escocês se apossou no navio de 500 toneladas no Oceano Índico, mas o abandonou no Caribe quando decidiu ir a Nova York em 1699, para tentar limpar seu nome. O pirata não foi capaz de convencer as autoridades e acabou enforcado em 1701.

Fonte: Agência Estado

Interessante descoberta arqueológica. Mas bom mesmo será quando encontrarem os navios dos Capitães Flint, Ahab e Gancho.

sábado, 20 de junho de 2009

Ciência confirma a importância da fofoca

Coisa, de resto, assaz conhecida em bairros, cidades do interior, empresas, escolas, famílias e outras organizações. Mas é a conclusão de um estudo do biólogo Ralf D. Sommerfeld, que analisa uma aplicação prática da Teoria dos Jogos. Mais de uma centena de voluntários participou de uma série de jogos. Os jogadores atuavam em duplas, tendo, em cada jogada, a opção de cooperar com o parceiro ou traí-lo. As regras eram tais que um jogador ganharia se traísse, mas não se o parceiro contasse com a possível traição. Portanto, era preferível construir a reputação de ser confiável.

Segundo o pesquisador, em notícia publicada no Estadão:

Em uma situação natural é improvável que possamos observar todas as pessoas com quem interagimos todo o tempo. É particularmente impossível 'ter estado observando' pessoas com quem só vamos interagir no futuro. Antropólogos e biólogos evolucionários supunham que essa informação (que não vem da observação) é adquirida por meio da fofoca.

Segundo o pesquisador, o novo estudo confirma a hipótese de que a fofoca transmite informação, e que essa informação é levada a sério. Só não se esperava que fosse levada tão a sério.

Em uma das rodadas do jogo, os participantes receberam relatórios com todas as jogadas anteriores feitas pelos colegas - quantas traições e quantas cooperações - além de uma fofoca artificial, que podia ser tanto positiva quanto negativa. A expectativa dos cientistas era de que, tendo o relatório para se basear, os jogadores ignorariam a fofoca na hora de decidir como interagir com o colega.

A suposição se mostrou falsa: 44% dos participantes do jogo mudaram de decisão ao tomar conhecimento da fofoca. Desses, 79% (ou 35% do total) decidiram cooperar sob a influência de fofoca positiva ou trair na presença de fofoca negativa. Com o nível de cooperação médio do jogo na ausência de fofoca em 62%, a presença de fofoca positiva elevou a taxa a 75%. Já a de fofoca negativa reduziu-a a 50%.

Fofoca tem um forte potencial para manipulação, que pode ser usado por trapaceiros para mudar a reputação de terceiros ou a própria, conclui o estudo.

A Teoria dos Jogos, que foi a base do experimento, ganhou o Nobel de Economia de 2007, com o trabalho de Leonid Hurwicz, Eric Maskin e Roger Myerson. A mesma Teoria já tinha dado o Nobel a John Nash, retratado no filme Uma Mente Brilhante.

A conclusão é confirmada por artigo do psicólogo social Frank T. McAndrew, em artigo no número de outubro de 2008 da Scientific American Mind (resumo aqui). Segundo ele, fofoca é um fenômeno mais complicado e socialmente importante do que pensávamos. É um subproduto da psicologia que evoluiu nos tempos pré-históricos para permitir que nossos ancestrais sobrevivessem e prosperassem em suas comunidades.

Segundo .McAndrew, a fofoca tem vários aspectos positivos: a confiança no parceiro de fofoca, a ligação causada pela partilha de segredos, o aprendizado de regras sociais e culturais não escritas, a lembrança de importância de regras e valores sociais, o desencorajamento de comportamentos contrários às normas estabelecidas, e, talvez o principal, ser o meio mais direto de se comparar socialmente com os outros.

O autor argumenta que a fofoca faz parte de nossa identidade, e parte essencial do funcionamento dos grupos, e deveria ser vista como uma proficiência social, e não como um defeito de caráter. Mas, diz ele, há que se fofocar na medida certa: fofoque demais, e será visto como não confiável; de menos, e se isolará socialmente. O bom fofoqueiro seria aquele que partilha informação importante, mas sem parecer que está agindo no interesse próprio, e sabendo calar a boca na hora apropriada. E, finalmente, a fofoca seria um lubrificante importante das conversas do dia a dia.

Bem, eu devo ser meio esquisito, pois acho que estranho mesmo é considerarem-se positivas todas essas coisas. E as conclusões da pesquisa parecem uma confirmação do valor prático do cinismo...

sábado, 14 de março de 2009

O método xenoetológico

O método xenoetológico

O que é o Inusitado?

Estou abrindo este tópico para discutir o método da ciência xenoetológica, considerando que ele apresenta variações sutis, porém importantes, em relação ao método científico standard. Vou começar pela importante questão levantada por uma consulta de uma leitora:

Olá... estive estudando comportamentos humanos e fiquei com uma grande dúvida e acredito que o Sr. possa tirar minhas dúvidas... Comportamentos inusitados, seriam comportamentos não comuns...não usuais? Porém um comportamento que para mim pode ser comum, para o outro pode ser inusitado... Poderia ser visto,em sua concepção, por este ângulo? Por Exemplo... na atualidade não é muito comum as crianças de classe média e classe média alta brincarem de Cabra-cega, porém,conheço algumas famílias dessa classes, que ainda acreditam que o computador não é a melhor diversão para seus filhos e sim, o resgate das brincadeiras, onde podiam se tocar, olhar olho no olho, dialogar cara a cara... Essa família estaria tendo um comportamento inusitado diante da sociedade atual? Ou seria outra coisa? Mais uma vez agradeço sua colaboração. Abraços.

Prezada, se um grupo suficientemente grande de pessoas considerar esse comportamento como inusitado, passa a sê-lo, certamente. Vale o Princípio da Relatividade do Inusitado, um dos pilares da xenoetologia: o inusitado de uns é o normal de outros. Por exemplo, no campo gastronômico, a grande maioria dos brasileiros considera extremamente inusitado comer carne crua, peixe cru, caracóis ou queijo mofado. Só uma minoria considera normal degustar carpaccio, sashimi, escargots e roquefort.

Relatividade do Inusitado

Outro exemplo da Relatividade do Inusitado, que descrevo em mais detalhes em A Grande Fênix, narra uma cena passada em uma sauna nos Alpes austríacos. Nessa região, como geralmente ocorre na Áustria e na Alemanha, as saunas são mistas e sem roupa, todo mundo na maior desinibição. Roupa de banho é considerada como algo anti-higiênico; por aí vocês vêem. Mas o ponto alto é a cerimônia da efusão de vapor, comandada por alguma autoridade, quando disponível:

Em certas horas, a efusão é feita de forma mais tradicional. Escolhe-se para realizá-la um homem mais velho e de posição. Por exemplo, quando apareceu um cavalheiro respeitosamente cumprimentado como Herr Burgermeister, logo foi convidado a comandar a efusão. Soado o alarme, o prefeito despejou a água de cheiro anisado com uma jarra, e em seguida ficou a girar uma toalha vermelha, para fazer o vapor circular. Vê-se aqui um dos princípios básicos da xenoetologia, que é a Relatividade do Inusitado. Imagine o leitor o prefeito de sua cidade, pelado, girando uma toalha vermelha, e quarenta a cinqüenta pessoas em volta, igualmente nuas, aplaudindo e emitindo grunhidos de aprovação.

O Inusitado Absoluto

Segundo a Xenoetologia Clássica, ele não existe: para que algo seja considerado inusitado, é preciso que um grupo significativo de observadores assim o considere. É claro que existe a discussão prática sobre quantos observadores são necessários para caracterizar um Inusitado, mas esse problema pode ser resolvido com técnicas estatísticas convencionais. Assim, tal como nas pesquisas eleitorais, o tamanho do grupo de observadores poderia ser dimensionado em função da margem de erro desejada.

Na esteira da Física Moderna, surgiu a escola de Xenoetologia Relativística. Tal como na Física, longe de afirmar que tudo é relativo, a escola sustenta que existe um Inusitado Absoluto, que é o próprio Universo. Realmente, a Física Moderna é cheia de proposições contrárias ao senso comum, como a independência da velocidade da luz no vácuo em relação ao observador, as dualidades matéria-energia e onda-partícula, os buracos negros e horizontes de eventos, a superposição de estados e o gato de Schrödinger... Isso para não falar dos táquions, da matéria e energia escuras, das singularidades nuas e do Princípio da Censura Cósmica, do emaranhamento quântico e da ação fantasmagórica à distância... Alguns propõem, inclusive, que todo este corpo de conhecimento (e desconhecimento) seja denominado de Xenofísica.

Alguns teólogos católicos se consideram vingados, pois os mistérios da Xenofísica são tão anti-intuitivos quanto velhas proposições teológicas, que geraram muitos cismas, guerras e perseguições a hereges, como a Trindade, o Diofisitismo e a Transubstanciação. Mas termina aí a semelhança, pois os teólogos se baseiam em Escrituras, ou em determinada interpretação delas, enquanto a Física Moderna se baseia em dados empíricos, e está plenamente disposta a abandonar qualquer de suas teses a partir do momento em que seja refutada pela experiência...

O Fim da Censura Cósmica?


Isso posto, ao ler o último número da Scientific American que me chegou às mãos, sou surpreendido por um artigo que especula sobre o fim do Princípio da Censura Cósmica. Formulado pelo eminente físico e matemático Sir Roger Penrose (um ídolo da Vovó Quântica, que alega ter entendido tu-di-nho que ele escreveu, o princípio afirma:

Não existem Singularidades Nuas.

Singularidades são pontos em que a matéria é infinitamente comprimida, esmagada até a dimensão... de um ponto. Os casos conhecidos até então, além da singularidade que deu origem ao Universo, no Big-bang, são as singularidades existentes no interior dos buracos negros, que surgem do colapso gravitacional de grandes estrelas, muito maiores do que o Sol. Essas singularidades são pudicamente escondidas do restante do Universo pelos horizontes de eventos, barreiras gravitacionais tão poderosas que nem a luz as pode ultrapassar.

Sendo os buracos negros singularidades vestidas, pode-se formular o Teorema Careca (no-hair theorem), segundo o qual Buracos negros não tem cabelos (eu não disse que o próprio Universo é o Inusitado Absoluto?). Físicos às vezes gostam de ser engraçadinhos, quero dizer, usar metáforas, e o que isso significa é que dos buracos negros só três grandezas são observáveis externamente: massa, carga elétrica e momento angular (rotação, em suma). Todos os demais detalhes (os cabelos) são escondidos pelo horizonte de eventos.

E, dizem os físicos, isso é bom, porque numa singularidade todas as leis da Física se desintegram, e podem acontecer coisas mágicas, como, por exemplo, regurgitarem gosma verde ou meias perdidas (mais metáforas de físicos). Mas, graças ao Princípio da Censura Cósmica, tais imoralidades estariam escondidas pelos horizontes de eventos, impedindo que contaminem o restante do Universo com mágica. Continuando assim o Universo tranqüila e serenamente determinístico.

A novidade é que foram descobertos, pelo menos em teoria, modos de colapso estelar que podem levar à formação, não de buracos negros, mas de singularidades nuas, com todas as indecências expostas. Físicos estão agora ávidos por observar a nudez das ditas singularidades, o que se espera conseguir por meio de observatórios espaciais ultra-sensíveis, planejados para os próximos anos. Olhando pelo lado positivo, espera-se ver pela primeira vez diretamente coisas interessantíssimas, como... a gravidade quântica em plena ação.

O referido artigo da SciAm está on-line:

http://www.sciam.com/article.cfm?id=naked-singularities

Outros artigos:

http://www.astronomyreport.com/research/Seeking_Objects_Wierder_Than_Black_Holes.asp

http://www.sciencedaily.com/releases/2007/09/070924151118.htm