A “aldeia cultural”
A “aldeia cultural” de Lesedi, situada a pouca distância de Joanesburgo, é um parque que reúne amostras de aldeias de quatro das principais culturas do país. Esse tipo de parque é conhecido como skansen, nome do parque na Suécia onde esse conceito foi aplicado pela primeira vez, ainda no Século XIX. A idéia foi adotada em muitos outros lugares; além do original sueco, por exemplo, lembro-me de ter visitado similares na Hungria e no Havaí (onde se representavam aldeias de toda a Oceania).
As culturas ali representada são os Zulus, o grupo mais numeroso, etnia do atual presidente Jacob Zuma; os Xhosa, etnia politicamente mais influente, a que pertencem Nelson e Winnie Mandela, o bispo Desmond Tutu e o ex-presidente Thabo Mbeki; os Sotho, que também formam a etnia dominante em Lesotho, país que é completamente cercado pela África do Sul; e os Pedi, ou Sotho do Norte. Esses grupos formam quatro das nove línguas nativas que são oficiais, além do inglês e do africâner. Os demais idiomas oficiais são o Tswana (dominante em Botswana, país relativamente grande, logo ao norte), o Swazi (dominante na Swazilândia, pequeno país encravado entre África do Sul e Moçambique), o Tsonga, o Venda e o Ndebele.
O mestre de cerimônias se veste de guerreiro Zulu e provavelmente é um deles, pois são dominantes na região. Na entrada da aldeia Zulu há uma “porta corrediça”, que, na realidade, é o pau mostrado na foto. Um guerreiro em uma torre de sentinela faz uma encenação de avisar o rei Zulu de que há estrangeiros querendo visitar a aldeia, e pergunta se eles podem entrar.
O rei aparece: é o sujeito de barba. Concede a permissão, e o guia explica os costumes zulus. Conta a história do rei Shaka, que conseguiu derrotar os ingleses e rivais nativos por uma combinação de brutalidade com brilhantismo estratégico e tático.
Uma das inovações de Shaka foi a substituição da arma mais tradicional dos zulus, a assegai, por uma espada curta, mais eficaz no combate corpo a corpo. Supostamente, o nome de iklwa, dado a essa espada, vem do som de sucção que ela faz ao ser retirada do corpo do inimigo.
Numa das demonstrações, o guia apresentava um prato com o que pareciam ser pedacinhos de carne seca macerada. Provei um, e achei que tinha mesmo gosto e textura de carne seca. Eu não tinha prestado muita atenção na descrição que ele fazia do prato, mas me disseram que se tratava de um inseto.
Em outra demonstração, uma moça exibia chapéus de várias etnias, que serviam também para indicar o estado civil da jovem. Na foto, a garota usa um saiote e um sutiã feitos de contas. Esse artesanato com contas é típico do país, mas, quanto ao sutiã, tenho minhas dúvidas se ele era realmente usado nas aldeias de verdade. Em documentário que apresentaram em DVD, as mulheres usavam ou uma túnica longa fechada logo abaixo dos ombros, que ia até os pés, ou, quando usavam saiote, ficavam de topless.
Por falar em saiote, um fato curioso é que os guerreiros Pedi usam saiotes de estilo escocês. A história, segundo consta, é a seguinte. Durante uma guerra com os britânicos, esses se apresentaram diante da aldeia com os Highlanders à frente, com kilts, gaitas de fole e tudo a que se tem direito, convencidos de que são os mais machos, enquanto os ingleses propriamente ditos ficavam, muito espertamente, na segunda linha. O chefe Pedi se espantou com a covardia britânica de mandarem as mulheres na frente, e ordenou aos guerreiros que ignorassem aquelas damas na linha de frente, passando por elas para atacar os ingleses lá atrás. O resultado foi um massacre, é claro. Desde então, os Pedi usam saiotes escoceses, para nunca se esquecerem de como o homem branco é astucioso.
Em seguida, foi servido um banquete pan-africano, com carnes de antílope e avestruz, uma espécie de angu branco chamado de pap, e destaque para um excelente guisado de crocodilo. Havia também um prato com “ave africana”, mas, como a ave africana do dia era galinha, esse eu dispensei. Não que eu me tenha convertido à Grande Fênix, mas não vou até a África comer algo que não só tastes like chicken como is chicken.
Depois do jantar, um show, difícil de fotografar por causa da pouca luz. Manipulando o contraste, dá para corrigir razoavelmente algumas das fotos. Na de baixo, o que me pareceu curioso foi o traje dos dançarinos, lembrando o Antigo Egito.
Soweto
O Soweto é um bairro de Joanesburgo, populoso e distante do centro. O nome é uma sigla para South Western Townships (distritos municipais do sudoeste). Fica próximo a ele o Soccer City, com seu formato de cabaça africana, e os painéis coloridos que procuram dar a impressão de fogo sob a iluminação noturna.
O bairro se originou em fins do Século XIX, para alojar os trabalhadores das minas de ouro. Décadas antes, os ingleses não tinham conseguido convencer os nativos a trabalharem nas plantações de cana de açúcar de Durban, e não havia escravos, já que os ingleses procuravam se apresentar como campeões do anti-escravagismo, como sabemos da História do Brasil. Para essas plantações, tiveram que importar trabalhadores indianos, que hoje formam a principal minoria de origem asiática.
Quando aconteceu o boom do ouro, entretanto, os governantes já tinham tomado o cuidado de passar leis para despojar os nativos das terras deles. Sem terra, muitos tiveram que ir trabalhar como mineiros; outros foram atraídos pela oportunidade de ganhar um pouco mais de dinheiro, inclusive alguns indianos. Os trabalhadores acabaram sendo removidos de Joanesburgo para alojamentos nesse local distante, sob o pretexto de evitar surtos de peste.
A presença de mulheres era inicialmente proibida, mas depois acabou sendo liberada por imaginar-se que isso contribuiria para diminuir as inúmeras brigas que terminavam em assassinatos. Como isso, formaram-se núcleos familiares, e depois industrialização atraiu ainda mais gente. Durante a era da Apartheid, muitos foram forçados a vir para o Soweto, expulsos de área reservadas para os brancos na parte central de Joanesburgo.
Hoje em dia, o próprio Soweto é dividido em áreas consideradas pobres, ricas e de classe média. As partes de classe média são formadas por antigas casas populares de quatro cômodos construídas pelo governo da Apartheid para os trabalhadores negros, conhecidos localmente como matchboxes (caixas de fósforo), assim como os alojamentos para trabalhadores migrantes, hoje transformados em conjuntos habitacionais. A parte realmente pobre é formada por favelas com moradias improvisadas, como a da foto abaixo.
A chamada parte rica é formada por casas confortáveis, mas que, no Brasil, corresponderiam à classe média alta, se tanto. Nessa parte ainda moram algumas personalidades da luta contra a Apartheid, como Winnie Mandela e o bispo Desmond Tutu. Nelson Mandela atualmente reside no bairro de Houghton Estate, na cidade de Joanesburgo, como dito anteriormente, mas a casa dele no Soweto é atualmente a sede da Fundação Mandela, mostrada abaixo.
A memória da Apartheid
Durante a Apartheid, o Soweto sofreu não só a repressão do governo branco como uma espécie de guerra entre o ANC e o Inkatha Freedom Party (IFP), partido étnico zulu que se opunha à liderança predominantemente Xhosa do ANC. O IFP era e ainda é chefiado por Mangosuthu Buthelezi, primo de Goodwill Zwelithini kaBhekuzulu, rei dos zulus, um título apenas cerimonial mas oficialmente reconhecido. Os choques eram violentos, com o IFP apoiado por forças da polícia branca, resultando em atrocidades de ambos os lados. Depois da eleição de Mandela, que foi apoiado pelo rei dos zulus, o IFP perdeu força e abandonou a violência, tornando-se apenas um partido político de oposição, atualmente bastante enfraquecido porque os lideres zulus mais expressivos passaram a fazer parte do ANC, como é o caso do atual presidente Jacob Zuma, o primeiro presidente Zulu do país. Meu guia no giro pelo Soweto, que era zulu, culpava principalmente o IFP pela violência da época.
O guia deu também informação interessante sobre as religiões locais. Como o giro foi num domingo, era possível ver os grupos de fiéis em torno das diversas igrejas. O próprio guia era membro da Zion Christian Church, denominação evangélica que é a mais numerosa do país. Os fiéis vão aos cultos com uniformes de diversas cores, representativos das posições que ocupam dentro da Igreja.
Um parque memorial chamado Hector Pieterson Museum comemora o episódio mais famoso do bairro, o Levante do Soweto. No dia 16 de junho de 1976, uma marcha de 10.000 estudantes secundaristas protestava contra a imposição do africâner como língua de ensino para metade das matérias nas escolas permitidas para os negros. A marcha foi barrada pela polícia, que lançou cães contra os estudantes. Os cães foram apedrejados e os policiais abriram fogo, matando muitos estudantes, entre os quais Hector Pieterson, um menino de doze anos, que aparece na foto central do parque agonizante, acompanhado pela irmã e carregado por Mbuyisa Makhubo, de 18 anos, que teve de fugir do país. Em 1978, ele enviou da Nigéria uma carta à mãe; depois, nunca mais se teve notícia dele, e acredita-se que tenha morrido de malária.
A foto correu o mundo e se tornou um dos símbolos da luta contra a Apartheid. Nos dias seguintes, novos confrontos levaram à morte de centenas de pessoas, com milhares de feridos. Levantes menores se seguiram em outras cidades da África do Sul. No médio prazo, o resultado acabaria levando ao fim do regime da Apartheid, que nunca mais se recuperaria da instabilidade política e das sanções internacionais que se seguiram.
Além da prisão-museu de Constitution Hill e do Museu de Hector Pieterson, o Apartheid Museum completa o trio de principais referências àquela era, em Joanesburgo. Curiosamente, está situado num parque pertencente a um cassino; representou uma espécie de contra-partida de serviço público, oferecida pelos concessionários. Não trouxe fotos de lá, mas, por exemplo, um vídeo promocional do museu está disponível no Youtube.
Ao entrar no museu, o visitante recebe, aleatoriamente, um bilhete para branco ou não-branco, cada correspondente a uma entrada. A história da segregação racial é contada através de uma dúzia de salões, com pôsteres, vídeos e objetos. Numa sala sobre a repressão, um carro blindado de verdade, dos que eram usados pela polícia segregacionista. Na sala sobre a aplicação da pena de morte, dezenas de forcas pendem do teto. Os pôsteres têm um pequeno texto em negro, e uma explicação mais detalhada em cinza. Mesmo lendo apenas os textos em negro, quatro horas mal são suficientes para ver todo o museu.
Uma sala chamada de Satyagraha é dedicada à memória de Gandhi, um herói também na África do Sul. Gandhi chegou ao país como um jovem advogado, contratado para defender a comunidade indiana, e permaneceu por cerca de vinte anos, durante os quais passou pela prisão e começou a formular a filosofia de resistência não-violenta.
Outra sala explica o mecanismo de classificação racial: um departamento do governo tinha por finalidade determinar a que raça as pessoas pertenciam. Os classificados podiam apelar da “sentença”; por exemplo, negros às vezes tentavam passar para o status de mestiços, um pouco menos sofrido, como fez a família de Hector Pieterson. O nome original da família era Pitso, e eles mudaram para um nome africâner, como é comum entre os mestiços. Às vezes funcionava, principalmente para os Xhosa, mais claros do que outras etnias e de traços levemente asiáticos, como é o caso de Nelson Mandela. Nenhum branco, é claro, jamais tentava ser reclassificado. E havia o reverso da medalha: quem achasse que um vizinho ou conhecido tinha recebido uma classificação “superior à merecida” também podia apelar contra!
Uma exposição temporária contava em detalhes a vida de Nelson Mandela, desde a origem dele como membro da pequena nobreza Xhosa. Passa pela época em que Mandela começou a lutar contra o Apartheid, primeiro seguindo os passos de resistência não-violenta adotados pelo mestre dele, Albert Lutuli, primeiro sul-africano a ganhar o Prêmio Nobel da Paz. Mais tarde, juntamente com os aliados do Partido Comunista, concluiu que a resistência não-violenta não estava dando resultados, e foi um dos fundadores da organização Umkhonto we Sizwe, braço militar do ANC. A luta armada consistiu principalmente de atos de sabotagem, lançados com apoio de bases em países vizinhos (nos quais o governo sul-africano, por sua vez, ajudava guerrilhas rebeldes, como a UNITA em Angola e a RENAMO em Moçambique).
Foi preso em 1963 junto com outros líderes do ANC no subúrbio de Rivonia, na fazenda de Liliesleaf, que estava em nome de Arthur Goldreich, um dos líderes brancos do Partido Comunista, já que só brancos podiam ter fazendas. Goldreich mais tarde conseguiu fugir da prisão. A promotoria pediu a pena de morte para a maioria dos acusados, mas ela não foi concedida por causa da pressão internacional e da perícia da equipe de defesa, liderada por Harry Schwarz, outro dos heróis anti-segregacionistas brancos. Mandela e sete outros acusados, inclusive um indiano e um branco, foram condenados à prisão perpétua, e outros a longas penas de prisão.
Dos vinte e sete anos que passou na prisão, os dezoito primeiros foram na Ilha de Robben, próxima da Cidade do Cabo, onde eram obrigados a trabalhos forçados e os presos políticos tinham condições ainda mais duras que os presos comuns negros. Mesmo assim, Mandela conseguiu estudar Direito por correspondência, recebendo o diploma da Universidade de Londres. Em 1982, quando estava em péssimas condições saúde, foi transferido para outra prisão de segurança de máximo no continente, onde, entretanto, começou a receber os primeiros contatos para negociações com o governo segregacionista. Em 1988, com as negociações já avançadas, foi transferido para uma prisão de segurança mínima, onde pôde viver com algum conforto até ser solto em 1990. Com a paz, a Umkhonto we Sizwe foi incorporada ao exército sul-africano.
A parte final da exposição é dedicada aos anos de presidência, inclusive com algumas críticas. Uma crítica freqüentemente feita refere-se ao fato de que Mandela se recusou a disputar a reeleição que a Constituição lhe permitia, entregando o poder cedo demais a uma nova geração despreparada, que deu origem às cisões e acusações de corrupção que têm atormentado o ANC desde então. Seja como for, o partido continua com maioria absoluta no Parlamento e governando todas as províncias, exceto a do Cabo Ocidental. A principal autocrítica do próprio Mandela é de não ter dado atenção suficiente ao problema da AIDS, que acabaria matando um filho dele.
Mas a parte mais curiosa da exposição sobre Mandela me pareceu uma sala onde são exibidos vídeos de duas entrevistas feitas provavelmente no final dos anos setenta. Numa delas, o entrevistador pergunta ao então ministro das Relações Exteriores, Roelof “Pik” Botha, se algum dia a África do Sul poderia ter um presidente negro. Botha responde taxativo: Nunca. Hoje em dia, ele também é membro do ANC... Na outra, a mesma pergunta é feita a Winnie Mandela, ainda relativamente jovem e atraente. Ela também responde sem piscar: Sim. O entrevistador pergunta quem, e mais uma vez ela não tem dúvidas: Nelson Mandela.
Enfim, esse foi meu último passeio em Joanesburgo. Com a insegurança na cidade, os hotéis recomendam que as visitas a museus e outras atrações sejam feitas em excursões ou contratando um táxi no hotel, que fica esperando durante a visita, como foi o caso no Museu da Apartheid. Não fica especialmente caro, mas esse tipo de coisa acaba cansado, e por causa disso desisti de visitar o Centro das Origens, museu arqueológico situado na Universidade de Witwatersrand.












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