domingo, 4 de julho de 2010

Joanesburgo - I

A cidade

No caminho de volta, uma parada de alguns dias em Joanesburgo, de onde saem os vôos para São Paulo. As oito horas da ida se transformariam em nove e meia na volta; a diferença é por causa da jet stream subtropical, a forte corrente de vento que circula o globo nessa latitude; como São Paulo e Joanesburgo ficam quase na mesma latitude, a corrente empurra na direção oeste-leste, a direção de rotação da Terra.

Joanesburgo é maior cidade do país, embora não seja capital de nenhum dos poderes (Pretória, que fica bem próxima, sedia o Executivo, a Cidade do Cabo o Legislativo, e Bloemfontein o Judiciário). Fundada no Século XIX pelos Voortrekkers (pioneiros), os colonos de origem holandesa que fugiam da Colônia do Cabo controlada pelos ingleses, é apenas capital da província de Gauteng (pronuncia-se com o g holandês, que parece uma versão ainda mais aspirada do ch alemão). O nome da província, que significa lugar do ouro, é do Sotho, um dos idiomas locais, que por sua vez tomou emprestada a palavra holandesa para ouro. O ouro foi o grande responsável pela riqueza da cidade, e, futuramente, pelos problemas que desaguaram na Apartheid. E a fuga não adiantou muito: os ingleses foram atrás e, depois da Guerra dos Bôeres, controlaram também a região.

A City Tour inclui tanto o bairro rico de Houghton Estate, passando pela residência atual de Nelson Mandela, quanto as ruas centrais onde fica o camelódromo mostrado pela televisão nos dias anteriores à Copa. Os camelôs são, na maioria, imigrantes de outros países africanos, que formam atualmente a camada mais pobre da população. Ironicamente, são o alto de manifestações de xenofobia dos locais, que julgam, talvez com razão parcial, serem os imigrantes os responsáveis pela onda de criminalidade.

Tem-se uma boa idéia da cidade do mirante do Carlton Centre, o prédio mais alto. Na foto abaixo, vê-se o Ellis Park, rebatizado como Coca-Cola Park, que fica próximo.

O Soccer City também pode ser vista ao longe, próximo ao Soweto. É o pneu avermelhado que brilha um pouco à esquerda e acima do centro da foto.

No térreo do Carlton Centre, um shopping, onde estava sendo montado um jogador de futebol feito de balões. Dizem que era para ser o Ronaldinho Gaúcho.

Shoppings, aliás, parecem ter na África do Sul e mais ainda em Joanesburgo uma importância social ainda maior do que no Brasil, e em parte pelas mesmas razões: têm bastante segurança (e, de fato, vi gente sendo presa num deles). Muito mais do que as ruas, nas quais o próprio hotel em que fiquei recomendava “não andar desacompanhado”, sem sequer especificar a que horas. E lojas de Gucci, Boss e similares dão o toque de luxo.

O próprio hotel ficava ao lado do Sandton City, um shopping enorme, ou, nos nossos termos, um conglomerado de shoppings, em torno da Nelson Mandela Square, um point local, marcado por uma estátua colossal de Mandela. Os restaurantes dessa praça são bem melhores do que costumam ser os de nossas praças da alimentação.

Constitution Hill

Numa das partes do Hillbrow, o bairro residencial mais central de Joanesburgo, fica a Constitution Hill, marcada por uma fortaleza que era usada como prisão, tanto para os presos políticos como para os piores criminosos. Gandhi, Mandela e praticamente todos os lutadores contra a Apartheid passaram por ali. Parte da prisão foi reformada e transformada no prédio da Corte Constitucional, o equivalente ao STF de lá. Entretanto, considera-se que a capital do Judiciário é Bloemfontein, onde fica o equivalente do STJ.

Outra parte, entretanto, foi mantida como um memorial em que é preservada a história da prisão. Visita-se uma cela onde os presos são representados por bonecos de palha. No fundo da cela, uma grande quantidade de colchões e cobertores formava uma espécie de plataforma macia, na qual ficavam os chefes do crime; os colchões e cobertores eram “confiscados” dos presos novatos. Numa segunda linha, em colchões separados, ficavam os “soldados” que formavam a guarda dos chefões. Na terceira linha, empacotados com os pés alinhados à cabeça dos vizinhos e vice-versa, para coubessem nos colchões restantes, ficam os “sardinhas”. Finalmente, os dois prisioneiros considerados como os de mais baixo grau tinham que dormir apenas sobre um cobertor, ao lado do único vaso sanitário. Quando um dos chefes ia fazer as necessidades, eles tinham que se levantar e estender os cobertores para proteger a privacidade do chefão.

Os prisioneiros só podiam tomar banho depois de alguns meses na prisão, e a partir daí apenas uma vez por semana, em uma bica gelada. Periodicamente, tinham que participar de uma cerimônia chamada de tausa: o prisioneiro nu, de pernas abertas, tinha que pular, batendo palmas acima da cabeça, que era abaixada enquanto ele fazia cliques com a boca, e levantando o traseiro, o que permitia que os carcereiros lhe examinassem o reto sem tocá-lo. A humilhação era ainda maior porque, para muitas culturas locais, existe o tabu de que homens mais velhos não devem ficar nus diante dos mais novos.

A Apartheid chegava até o cardápio diário, detalhe por detalhe, como mostra um cartaz exposto no pátio da prisão, que detalha as regras de distribuição de comida conforme a raça. O almoço era servido em três tambores; o primeiro, chamado de Congresso Um, tinha um cozido de carne para os prisioneiros brancos; o Congresso Dois tinha um cozido de vegetais com algumas aparas da carne do Congresso Um, e servia aos prisioneiros asiáticos e mestiços; e o Congresso Três, para os prisioneiros negros, tinha apenas um mingau com feijões e cereais. No café da manhã, os brancos tinham direito a uma porção de leite, os asiáticos e mestiços a meia porção, e os negros apenas a café preto.

Para um negro ser preso ali, bastava que estivesse nas ruas sem permissão, depois do toque de recolher. O único apoio legal que tinham era o aconselhamento por prisioneiros advogados, como foi o caso de Gandhi, Mandela e do líder comunista branco Joe Slovo. Em suas memórias, Slovo relata como usava um sanitário como escritório, dando assistência legal não só aos prisioneiros como aos próprios carcereiros.

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