Chitas e avestruzes
Fora das reservas de caça, visitei uma fazenda de chitas, ou guepardos, ainda na região vinícola. As chitas são tidas como o mais manso dos grandes felinos, e podem ser domesticadas como cachorros; depois fiquei sabendo que monarcas famosos, como Gêngis Cã, Carlos Magno e Akbar, o Grande, tinham chitas como assistentes de caça; eram encarregadas de capturar a caça farejada pelos cachorros, usando a condição de animal terrestre mais veloz do mundo. Tratava-se de uma fazenda e não propriamente de uma reserva, pois as chitas ficavam em cercados pequenos semelhantes a canis; o objetivo era preservá-las, pois a espécie estava ameaçada tanto por predadores mais fortes, que tomam a caça que ela captura, como pelos fazendeiros, cujo gado atacavam na falta de caça.
Mas é bom não confundir chitas com leopardos. Leopardos são considerados mais perigosos que leões e tigres, pois, precisamente por serem menores, escondem-se melhor e sobem com facilidade em árvores, além de serem mais astutos e sorrateiros, e ousados o suficiente para entrar em aldeias humanas, o que fazem quando estão doentes ou feridos e não conseguem caçar.
Já a criação de avestruzes não visa a preservação, e sim o lucro, mesmo. Já houve época, do Século XVIII ao começo do século passado, em que as penas de avestruz eram parte da moda feminina elegante, o que produziu na África do Sul alguns Barões da Avestruz, como o que construiu a mansão abaixo, hoje tombada pelo Patrimônio Histórico.
As penas que interessam são as brancas, existentes apenas no macho, que depois são tingidas de outras cores. Após a Primeira Guerra Mundial, a moda acabou e muitos barões faliram, mas as penas voltaram a ser populares em décadas recentes. Dizem que o Brasil é um dos grandes importadores, por causa do carnaval carioca. Além disso, as avestruzes são cultivadas por causa do couro, que é de boa qualidade, dos ovos e da carne.
Os ovos, seguindo me disseram, têm a mesma aparência e sabor que ovos de galinha, mas um de avestruz equivale a vinte e quatro de galinha. A casca é resistente o suficiente para que um par possa agüentar o peso de um turista, e são muito vendidas nas lojas de souvenir.
Já a carne é vermelha, de aparência, textura e gosto mais parecidos com a carne de boi que com a de galinha. Além de vários bifes, degustei um dia um pedaço de pescoço; detesto pescoço de galinha por causa da pouca carne, e acho até o pescoço de peru um tanto avaro, mas um pescoço de avestruz se assemelha a uma rabada, na aparência e na quantidade de carne.
A história de que avestruzes enterram a cabeça na areia é lenda; o que elas fazem quando sentem perigo é abaixar a cabeça até o chão, tornando-se menos visíveis. Não são bobas, portanto; outra esperteza é que as fêmeas, que são cinzentas, cuidam dos ninhos de dia, e os machos, que são negros excetos pelas poucas e temporárias penas brancas, assumem o posto à noite, em ambos os casos também reduzindo a visibilidade. Além disso, está longe de ser indefesa; têm muito boa visão, corre muito e o coice, que é para a frente, pode matar um homem.
Quem cobre a cabeça das avestruzes são os tratadores, o que faz com que elas fiquem quietinhas, enquanto se colhem as penas, ou são exibidas para os turistas.
Para quem gosta de apostar, existem as corridas de avestruzes, populares na África. Os arreios são semelhantes ao dos cavalos, mas os jóqueis abaixo usavam pseudônimos de corredores de Fórmula 1.
Knysna
Duas das noites na Rota dos Jardins foram passadas na cidade costeira de Knysna (pronuncia-se naisna). A Wikipedia diz que é um lugar preferido de artistas e hippies, mas o guia achou muita graça da parte dos hippies. Tanto que começou o segundo dia no local dizendo: Now, let us see if we find some hippies. A coisa mais próxima de hippies que encontramos foram alguns coitados que faziam móbiles com arame para vender aos turistas, durante uma visita ao bairro dos ricos.
Aliás, passeio pelos bairros dos ricos parece ser um programa turístico padrão do país, pois aconteceu também na Cidade do Cabo, e aconteceria depois em Joanesburgo e até no Soweto (no caso, ricos para o padrão do lugar). Em Knysna, o objetivo não era tanto admirar as mansões quanto visitar o mirante onde os artesãos faziam ponto, de onde se tinha algumas belas vistas da cidade, situada entre o Oceano Índico e uma laguna.
O passeio pela região incluiu visitas a várias praias e lagoas, bonitas, mas não muito diferentes de similares brasileiros. Na laguna da cidade, a parte mais interessante foi um cruzeiro ao por do sol em um barco de pás, semelhante aos do Mississipi. Naturalmente, não se trata de um barco a vapor de verdade; desses, só encontrei até hoje um no próprio Mississipi, em Nova Orleãs.






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