domingo, 13 de junho de 2010

A Província do Cabo Ocidental - I

O cabo

Como a gente aprende nos livros de História, o Cabo da Boa Esperança foi “descoberto” por Bartolomeu Dias, em 1488, ganhando direito a uma estátua na Cidade do Cabo, junto com o colega Vasco da Gama, que passou o Cabo rumo às Índias. O navegador português deu ao cabo o nome de Cabo das Tormentas, mudado pelo rei de Portugal para Cabo da Boa Esperança para espantar o azar. Parece não ter adiantado muito, pois continuou sendo, nos séculos seguintes, uma região onde naufragaram muitos navios, que se aproximavam demais da costa tentando fugir dos ventos ainda mais fortes ao sul. Dizem que lá é a residência principal do Holandês Voador.

No caminho, pode-se apreciar o quanto o mar é agitado num passeio à Ilha das Focas, mostrada abaixo. Embora a viagem seja curta, chega-se ocasionalmente a levar respingos de uma onda mais forte, e alguns passageiros passam mal. A ilha fica rodeada pelo chamado Anel da Morte, um círculo de tubarões brancos à espera de alguma foca mais incauta.

O cabo propriamente dito é formado por uma falésia, onde existem as ruínas de uma fortaleza. Chega-se em um local próximo por meio de um pequeno funicular, que estava em obras para a Copa, temporariamente substituído por vans.

Abaixo, um ângulo bastante conhecido visto de outro ponto, mostrando uma prainha que pareceria convidativa se estivesse fazendo um bocado de frio.

O cabo era considerado inicialmente como o ponto mais ao sul do continente africano, e, portanto, divisor convencional entre os oceanos Atlântico e Índico, e assim ainda é, na imaginação popular. Na realidade, o título cabe ao Cabo Agulhas, 150 km a leste. O nome em inglês é assim mesmo, Agulhas, mas eles pronunciam Agâlas.

Na praia que fica do outro lado do cabo, mais acessível, fica o marco que declara ser aquele o ponto mais a sudoeste da África. Cheio de pedras, a praia tem muitos restos de algas enormes, que ficam parecendo um ninho de cobras.

O ponto mais popular desse passeio é a vista à praia onde existe uma colônia de pingüins. Chega-se lá contornando uma base naval que, segundo a guia, foi um importante ponto de apoio para os britânicos na Guerra das Malvinas. Ou seja, os grandes apoios da Thatcher nessa guerra eram o Pinochet e o regime da Apartheid, que teoricamente era boicotado pelos britânicos, conforme as resoluções da ONU.

Enquanto alguns vagueiam pelas pedras ou entram no mar, a maior parte fica na areia, cuidando dos ovos colocados em buracos que cavam, como o que fica à esquerda da foto. A tarefa pode ser executada tanto por papai quanto mamãe, que se revezam no mister. Por falar em chocar, pingüins provavelmente chocam Homens Santos e fenômenos similares da direita orkutiana, já que, além de macho e fêmea dividirem as tarefas do lar, às vezes formam casais gays.

O uniforme de garçom só é usado pelos adultos. Pingüins crianças e adolescentes têm plumagem cinza azulada, como o que está de costas, próximo ao centro da foto.

Os vinhedos

Como sabem os apreciadores de vinho, a África do Sul é um dos grandes produtores do mundo, e a região vinícola fica próxima da Cidade do Cabo, já subindo as montanhas rumo a Joanesburgo. Um dos passos de montanha atravessados é o Passo de Theronsberg, que recebeu o nome dos Theron, uma das famílias tradicionais de huguenotes franceses que vieram para a Colônia do Cabo durante a dominação holandesa, fugindo das perseguições aos protestantes na França. A atriz Charlize Theron pertence a essa família.

Na estrada, passamos por um bando de babuínos, comuns na região. Dizem que os babuínos, muitos espertos, sabem distinguir entre mulheres e homens, e atacam de preferência as mulheres, que eles sabem serem mais lentas e fracas. Além disso, sabem abrir portas de carros, onde entram para roubar bolsas. Dizem que se um babuíno tomar sua bolsa, o melhor é ficar quieto, pois ele vasculhará a bolsa procurando comida, e depois largará a bolsa. Se for perseguido, o babuíno se esconderá no mato com a bolsa, que nunca mais será achada.

Na região vinícola, visitamos a cidade de Paarl, nome que significa pérola, porque é cercada de montanhas de rocha brilhante. Esta é uma região predominantemente branca, e no topo de uma das montanhas há um monumento ao idioma africâner. A cidade lembra cidades européias, com chalezinhos, belos jardins e ruas arborizadas por carvalhos.

A vinícola visitada foi a KWV, sigla africâner para Cooperativa dos Vinicultores, que conserva esse nome embora atualmente seja uma empresa privada. Lá dentro, empilham-se os enormes tonéis de carvalho usados para o envelhecimento do vinho. Por um preço bem barato, pode-se participar de uma sessão de degustação, na qual tipicamente são servidas pequenas doses de certo número de vinhos que o freguês escolhe de uma lista. Naturalmente, nenhum turista cospe os vinhos, como fariam degustadores de verdade.

Durante toda a viagem, preferi manter foco nos vinhos que são mais típicos do país. Dentre os tintos, preferi os Pinotage, casta resultante do cruzamento da clássica Pinot Noir da Borgonha com a Hermitage; mas é grande também a oferta de bons Cabernet Sauvignon e Shiraz, como parece ser o caso dos demais países produtores de vinho do Hemisfério Sul do chamado Novo Mundo (ou seja, Argentina, Brasil, Chile, Uruguai, Austrália e Nova Zelândia). Dentre os brancos, eu preferia o Chénin Blanc, que tem uma leve acidez frutosa interessante, mas é geralmente até mais barato que os também sempre presentes Chardonnay e Sauvignon Blanc.

Outra cidade visitada foi Stellenbosch, sede de uma universidade tradicional, de onde provavelmente vem a maioria dos vinhos sul-africanos que chegam ao Brasil. Nas proximidades, um vale semelhante aos alpinos, só que tudo em versão subtropical. As nuvens no topo da montanha são curiosas; apesar de que o céu tivesse permanecido muito azul durante todo o dia, elas se mantiveram sempre estáveis e paradas, lembrando a cobertura de neve das montanhas alpinas de verdade.

Alguns dias mais tarde, já na viagem pela Rota dos Jardins, eu participaria de uma degustação numa produtora de vinho do Porto, na cidade de Calitzdorp. Curiosamente, os portugueses parecem não se incomodar de que outros países usem essa denominação, enquanto os franceses conseguiram a exclusividade dos termos Champagne e Cognac, atualmente de uso proibido até no Brasil, onde antigamente essas coisas não eram levadas a sério.

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