Chegando lá
Neste ano, a conferência da IXA, a International Xenoethological Association, foi realizada na Cidade do Cabo, na África do Sul. Naturalmente, havia uma relação indireta com a Copa do Mundo: futebol é uma fonte inesgotável de comportamentos inusitados, seja de torcedores, jogadores, técnicos, juízes, cartolas ou comentaristas, e a conferência serve de aquecimento para os observadores xenoetológicos da competição. O que, no meu caso, ocorrerá exclusivamente via televisão.
Tratei de ficar em um hotel muito bem localizado, ligado diretamente ao centro de convenções onde a conferência transcorreria. Observava-se que a maioria dos funcionários de nível alto e intermediário era de brancos, o que ocorreria também nos serviços de conferência e das excursões. Isso reflete a composição étnica e a situação econômica da província do Cabo Ocidental, da qual a Cidade do Cabo é capital, e sobre a qual falarei a seguir. No mais, era um hotel de cinco estrelas como qualquer outro, sendo de interesse xenoetológico apenas o balneário do hotel, de que tratarei posteriormente.
A cidade
A Cidade do Cabo (Cape Town) é a capital da província do Cabo Ocidental (Western Cape), e capital legislativa da África Sul (Pretória é capital executiva, e Bloemfontein a capital judiciária). O cabo propriamente dito recebeu como primeiros visitantes europeus Bartolomeu Dias (1486) e Vasco da Gama (1497), mas os holandeses comandados por Jan van Riebeeck foram os primeiros a se estabelecerem, em 1652. A ocupação da Holanda pela França revolucionária serviu de pretexto para que os ingleses ocupassem a região, e, terminadas as guerras napoleônicas, resolveram que não iam devolvê-la coisa nenhuma. Com isso, o holandês falado pelos colonos originais acabou se transformar no africâner, considerado como língua separada.
O centro da cidade, mostrado na foto abaixo, fica numa bacia entre o mar e a Montanha Mesa (Table Mountain), mas muitos outros bairros se estendem por grande área, contornando a montanha, mais ou menos como acontece no Rio de Janeiro, cidade com a qual os locais gostam de se comparar. Junto ao mar, vê-se a região do porto, onde estava o hotel em que fiquei, e o estádio construído para a Copa, que pode ser usado tanto para o futebol, esporte preferido dos negros, como para o rugby, esporte preferido dos brancos, no qual a África do Sul é campeã mundial.
Os mestiços (coloured) formam quase metade da população, sendo um deles o atual prefeito. Não descendem apenas de brancos e negros, mas também, em boa parte, dos malaios (atuais indonésios) trazidos pelos holandeses como escravos, nos séculos XVII e XVIII. Isso explica o fato de que boa parte deles seja muçulmana, e de que a culinária local tenha muitos pratos de origem indonésia. A foto abaixo é do bairro muçulmano, com vista para a Montanha Mesa; as casinhas são tipicamente coloridas, enquanto o branco (nas casas e nas pessoas) predomina nos bairros elegantes de praia.
Os negros são cerca de 30%, a maioria da etnia xhosa (a mesma de Nelson Mandela). Os brancos são cerca de 20%, a maioria descendente dos colonos holandeses. A maioria dos brancos e mestiços fala o africâner como primeira língua, mas o inglês é falado por todos, como idioma de comunicação e principal língua do país.
A governadora da província, prefeita anterior da cidade, é branca, líder da Aliança Democrática, principal partido de oposição ao Congresso Nacional Africano (African National Congress, ou ANC), que controla o governo nacional e as demais províncias. É um partido liberal, que fez oposição também ao regime do apartheid; o velho partido do apartheid, o Partido Nacional, aderiu e se fundiu com o ANC...
A riqueza da cidade aparece na bela aparência dos bairros de praia e da região do porto, de que falarei depois. A criminalidade também é relativamente baixa, para os padrões do país. Mas o transporte coletivo praticamente não existe, e, ao longo das estradas de acesso à cidade, alguns muros estratégicos não deixam que turista menos atento perceba a presença de enormes favelas, de aparência bem pior que as congêneres das grandes cidades brasileiras...
O balneário
O balneário razoavelmente luxuoso e disponível para os hóspedes era composto de uma piscina um pouco aquecida, uma banheira de hidromassagem bem aquecida, e uma área a que chamavam de hot spa, ou seja, saunas seca e a vapor. Um aviso esclarecia que, na área do hot spa, a nudez era opcional. Lá dentro, um pequeno aviso dizia que roupas de banho era proibidas por questão de higiene, e que quem não quisesse ficar nu deveria solicitar um saiote romano. Entretanto, esse aviso estava em letras miúdas, e aparentemente ninguém lia e ninguém fiscalizava, pois as pessoas iam lá vestidas (ou não) como bem lhes aprouvesse.
O local era freqüentado por nativos, quase todos brancos, e por estrangeiros de todas as partes do mundo, o que leva a diferentes comportamentos, interessantes do ponto de vista xenoetológico. Os homens quase sempre ficavam pelados, com exceção de uns rapagões que, aparentemente, nem tinham lido os avisos, e mantinham suas enormes bermudas de jovem da atualidade. O que variava entre os marmanjos era o grau de desenvoltura: a maioria circulava de toalha na cintura, tirando-a apenas para tomar chuveiros ou para se sentar sobre ela dentro da sauna. Uma exceção era um sujeito muito gordo e feio, que ficava bem à vontade, passando boa parte do tempo ao celular. Conversando com um amigo dele, um jogador de futebol, filho de portugueses e que falava perfeitamente o português, deduzi que era um empresário resolvendo negócios futebolísticos.
Já as reações femininas eram mais variadas e curiosas. O primeiro e maior subgrupo era formado pelas que mantinham o maiô ou biquíni, divididas nos seguintes subgrupos: as que chegavam à porta de vidro de sauna, viam os homens pelados e recuavam; as que entravam e fingiam ignorar os pelados; as que, mesmo vestidas, conversavam normalmente com os pelados; e as que se aventuravam a ficar de topless. Da minoria que tirava a roupa, havia quem ficasse enrolada numa toalha de corpo inteiro, quem enrolasse só da cintura para baixo, e quem tirasse a tolha toda, do mesmo jeito que os homens. Deu para deduzir, pelo uso eventual do africâner, que essas eram nativas brancas ou mestiças; as poucas nativas negras que apareceram eram do grupo vestido e de comportamento bem discreto.
De resto, o que havia de notável no balneário era estar no décimo - nono andar do hotel, e, sendo todas as paredes de vidro, com vista magnífica para a região portuária, sobre a qual falarei depois, e para boa parte da cidade, inclusive o estádio, uma das atrações da Copa. Sendo o porto voltado para oeste, era possível ter a experiência magnífica de ver o por do sol de dentro da sauna seca. Evidentemente, os pelados lá de dentro seriam teoricamente visíveis de lá de fora, mas só para que estivesse de binóculos ou telescópio em um dos outros poucos prédios altos da vizinhança. E, afinal, por que alguém que não se importava ser visto pelas pessoas sentadas ao lado se importaria com o que pudessem ver de outros prédios?



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